Ex-diretores do Amazonprev receberam R$ 620 mil de empresa investigada pela PF

Os três ex-diretores da Amazonprev que foram alvos da Operação Sine Consensu (Sem Consentimento, em latim) nesta sexta-feira (6) receberam R$ 620,1 mil de uma empresa sediada em Niterói (RJ), que também está sendo investigada pela PF (Polícia Federal). Segundo a investigação, as transferências da Alfa A foram feitas entre junho e dezembro de 2024, no mesmo período das operações financeiras agora investigadas pela PF. Os ex-gestores beneficiados foram responsáveis pelas aplicações financeiras irregulares da Amazonprev.

A PF suspeita que o valor tenha sido transferido “a título de propina” em virtude dos “investimentos irregulares” feitos pela fundação, incluindo a aplicação de R$ 50 milhões no Banco Master, que entrou em liquidação extrajudicial. As aplicações irregulares, segundo a investigação, chegaram a R$ 390 milhões.

Na decisão que autorizou busca e apreensão contra os investigados, a juíza Ana Paula Serizawa, da 4ª Vara Criminal da Justiça Federal do Amazonas, afirmou que a operação entre a empresa e os ex-gestores foi atípica, “sem justificativa aparente”, e oferece “indícios de cometimento do crime de corrupção”.

“É completamente atípico que uma empresa que teria como objeto a administração de frotas de automóveis para terceiros e sediada na cidade de Niterói/RJ, repasse valores na casa da centena de milhares de reais a diretores de um fundo previdenciário do Estado do Amazonas, a milhares de quilômetros de distância da sede da empresa”, disse a juíza.

Nesta manhã, os agentes apreenderam materiais nos endereços de Claudinei Soares, ex-diretor de recursos e coordenador do Comitê de Investimentos; André Luis Bentes de Souza, ex-diretor de Previdência; e Cláudio Marins de Melo, ex-diretor de Administração e Finanças. A Justiça ordenou o afastamento dos três das funções na Amazonprev pelo prazo de 90 dias. O dono da Alfa A, Savio Loyola e Silva, também foi alvo de busca e apreensão. A juíza determinou a quebra do sigilo dos celulares deles.

A investigação mira cinco aplicações suspeitas de recursos da Amazonprev no período de junho a setembro de 2024. Uma delas, no valor de R$ 50 milhões, foi feita no Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. Houve também aplicação de R$ 257,7 milhões no C6 Bank, R$ 51,7 milhões no Daycoval e R$ 42,2 milhões no BTG Pactual.

Atropelo de recomendação

Segundo a PF, as aplicações ocorreram em desacordo com normas de governança e regras federais aplicáveis aos investimentos de recursos previdenciários. Também foram identificados indícios de irregularidades em procedimentos internos na Amazonprev. Na decisão que autorizou as medidas judiciais, a juíza fala em “indícios de gestão inapropriada e fraudulenta dos recursos”.

De acordo com a investigação, os ex-gestores atropelaram recomendação do próprio setor técnico da instituição, que havia recomendado não realizar o investimento em letras financeiras, em razão dos riscos deste tipo de investimento e sua rentabilidade menor em curto prazo. Uma consultoria contratada pela Amazonprev em 2023 também orientava a não adquirir letras financeiras.

Além disso, a auditoria identificou que a Amazonprev, exceto na compra das letras emitidas pelo Banco Master, adquiriu os títulos através de corretoras, gerando custos e gastos de remuneração da intermediação, quando podia ter feito as aplicações diretamente junto às instituições financeiras.

“No caso da aplicação no Banco Daycoval, a entidade previdenciária utilizou os serviços da Mirae Asset CCTVM Ltda. Já nas aplicações em títulos do BTG Pactual e C6 Consignado S.A., estas foram feitas por meio da empresa Terra Investimentos”, diz a decisão.

Aplicações

Apesar das restrições, a Amazonprev realizou as aplicações, conforme revelou auditoria do Ministério da Previdência Social. A primeira compra foi no dia 6 de junho de 2024, de letras financeiras emitidas pelo Banco Master, no valor de R$ 50 milhões. Segundo a PF, ela foi feita sem discussão prévia do Comitê de Investimento e sem a realização de cotações entre instituições financeiras diferentes. O Banco Master não estava na lista de instituições com baixo risco de crédito do BC.

A segunda aplicação foi feita no dia 20 de agosto de 2024, no valor de R$ 50 milhões, em títulos emitidos pelo Banco Daycoval. Segundo a PF, neste caso também não houve consulta a outras instituições que pudessem oferecer o produto desejado na ocasião.

A investigação aponta que, neste caso, houve deliberação prévia pelo Comitê de Investimentos em 15 de abril de 2024, que aprovou a alocação. Mas, para a PF, ainda assim, é questionável a aplicação da soma sem uma cotação prévia, ainda mais em uma instituição que também não estava na lista do BC.

A terceira aplicação foi realizada em 16 de setembro de 2024, no valor de R$ 40,7 milhões em letras financeiras emitidas pelo Banco BTG Pactual. Os investigadores afirmam que, embora a instituição tenha uma posição mais conceituada no mercado, a contratação das letras foi feita sem uma cotação prévia. Também não foi registrada a taxa de juros pagos pela aplicação.

A quarta aplicação foi feita de forma parcelada, em letras financeiras do Banco C6. Conforme o inquérito, a aplicação foi feita em duas parcelas, ambas no dia 16 de setembro de 2024, e que totalizaram R$ 250 milhões.

De acordo com a PF, nesta situação, não houve sequer deliberação prévia do Comitê de Investimentos. Da mesma forma que em outras aplicações irregulares, não foi feita cotação prévia e a instituição emissora dos títulos não se encontrava na lista de baixo risco do BC.

Ainda de acordo com a PF, houve outra irregularidade: o fracionamento da aplicação a fim de que esta não necessitasse da aprovação de outros setores da Amazonprev, no caso a Diretoria de Administração e Finanças e a Diretoria-Presidente, de forma conjunta. Porém, mesmo com o parcelamento, o valor de cada aplicação ficou ainda superior ao permitido dentro da alçada do Coordenador do Comitê de Investimentos. Os investigadores suspeitam que tenha havido erro de Claudinei.

Leia a nota completa:

NOTA DE ESCLARECIMENTO

O diretor-presidente da Fundação Amazonprev, Evilázio Nascimento, vem à público apresentar esclarecimentos necessários ao entendimento da operação “Sine Consensu”, realizada na manhã desta sexta-feira, 6/3, nas dependências da instituição.

“Em primeiro lugar, é fundamental deixar claro que eu não fui o alvo das investigações, mas três servidores sobre os quais recaem as suspeitas de irregularidades em investimentos feitos pela instituição. Na época em que as operações com o Banco Master e o C6 Bank foram efetuadas – junho e agosto de 2024 -, eu ainda não fazia parte da gestão da Amazonprev. Minha nomeação para o cargo se deu, por decreto do governador Wilson Lima, em maio de 2025. Portanto não há nenhuma fundamentação que possa me associar a tais investimentos”, destaca Evilázio.

O diretor-presidente informa que, tão logo soube dessas transações, por meio de denúncia do Sindicato dos Trabalhadores da Justiça (SINTJAM) ao Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM), no dia 4 de novembro de 2025, e até como forma de preservar a instituição, determinou a abertura de uma sindicância para apurar o que estava sendo apontado como irregularidade, afastando, de imediato, do setor de Operações Financeiras, as pessoas envolvidas.

“Essa sindicância foi concluída em janeiro de 2026 e o relatório resultante dessa apuração está sendo distribuído aos órgãos de justiça e de controle do Estado, como o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM), Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM), bem como aos conselheiros da Fundação Amazonprev. Tenho total interesse de que esses fatos sejam bem esclarecidos e me coloco à disposição para o que for preciso a fim de que não restem dúvidas não do meu não envolvimento, bem como do meu total interesse na apuração de toda e qualquer irregularidade”, finaliza Evilázio.

Com informações do Amazonas Atual.

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