Especialista aponta desafios de liderança, retenção de talentos e transformação cultural diante do avanço das novas gerações no mercado
O mercado de trabalho global passa por uma mudança acelerada no perfil de sua força produtiva. Projeções de organizações como o Fórum Econômico Mundial e consultorias internacionais indicam que, até 2030, Millennials e Geração Z devem representar aproximadamente 58% dos profissionais em atividade. Quando analisada isoladamente, a Geração Z deve corresponder a aproximadamente 30% da força de trabalho, segundo estimativas do U.S. Bureau of Labor Statistics e da Oxford Economics.
O avanço dessas gerações não representa apenas uma mudança numérica, mas estrutural. Empresas em todo o mundo já enfrentam desafios para adaptar cultura organizacional, modelos de liderança e estratégias de retenção a um público que valoriza propósito, saúde mental, flexibilidade e desenvolvimento contínuo.
De acordo com Paula Pedrosa, headhunter e especialista em empregabilidade, o principal erro das empresas ainda está na incoerência entre discurso e prática.
“Hoje, muitas organizações dizem buscar inovação e pensamento crítico, mas continuam contratando perfis tradicionais, pouco diversos. Isso gera frustração e limita resultados. Além disso, tentam reter Millennials e Gen Z com estratégias antigas, quando o que essas gerações buscam vai muito além de salário”, afirma.
Tecnologia, IA e o novo papel da liderança
Outro ponto central dessa transformação é o impacto da tecnologia no ambiente corporativo. Apesar de serem nativos digitais, jovens profissionais demonstram preocupação com o avanço da inteligência artificial e seus efeitos no mercado de trabalho.
Para Paula Pedrosa, o desafio não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é conduzida pelas lideranças.
“O medo não é da IA, mas da falta de protagonismo diante dela. Quando a liderança trata a tecnologia como ameaça, o time trava. Quando trata como ferramenta, o time evolui. O papel do líder hoje é tornar a IA parte da rotina, ensinando e mostrando como ela pode aumentar a produtividade com inteligência”, explica.
Nesse cenário, habilidades comportamentais ganham protagonismo.
“A capacidade de fazer boas perguntas será um diferencial decisivo. Quem sabe questionar bem direciona a tecnologia, conecta informações e toma decisões melhores. Isso é algo profundamente humano e difícil de ser substituído”, completa.
Mudança no conceito de sucesso corporativo
Com a ascensão dos Millennials a cargos de liderança, incluindo posições de alto escalão, o próprio conceito de sucesso nas empresas passa por redefinição. Relatórios de organizações como Deloitte e Adobe já apontam que essas gerações priorizam ambientes saudáveis, impacto social e equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Segundo Paula, essa mudança não elimina o foco em resultados, mas amplia sua compreensão.
“O sucesso corporativo deixa de ser apenas financeiro e passa a incluir sustentabilidade do negócio no longo prazo. E isso envolve pessoas. Não existe performance consistente com equipes esgotadas”, afirma.
Ela destaca que empresas que ainda tratam saúde mental e cultura organizacional como temas secundários tendem a perder competitividade.
“Não é sobre abandonar o lucro, mas entender que cultura, bem-estar e propósito são estratégias de negócio. No fim, são as pessoas certas, bem lideradas, que sustentam qualquer resultado.”
Adaptação como fator de sobrevivência
Com a consolidação das novas gerações como maioria no mercado, especialistas apontam que a adaptação deixou de ser diferencial e passou a ser condição para sobrevivência empresarial. A transformação envolve desde processos seletivos até modelos de gestão mais flexíveis e inclusivos.
O movimento já é visível em diversos setores, mas ainda avança de forma desigual, especialmente em mercados emergentes. A expectativa é de que, nos próximos anos, empresas que conseguirem alinhar cultura, tecnologia e gestão de pessoas estarão mais preparadas para competir em um cenário cada vez mais dinâmico e orientado por propósito.
